O NASCIMENTO DO MITO NEGRO – CHEICK ANTA DIOP Livro Nations Nègres et Culture

O Egito já havia perdido a sua independência há pelo menos um século quando Heródoto o visitou. Conquistado pelos persas em 525 (A.E.C)[1], o Egito sofreu contínuos processos de dominação por estrangeiros: depois dos Persas vieram os Macedônios sob o domínio de Alexandre (333 A.E.C), os Romanos, com Júlio César (A.E.C.), os Árabes, no século VII, os Turcos no século XVI, os Franceses com Napoleão, e finalmente os Ingleses no final do XIX.

Berço da civilização durante 10.000 anos[2], quando o resto do mundo ainda estava mergulhado na barbárie, o Egito, devastado pelas sucessivas invasões, nunca mais desempenhou um papel central na política [internacional]. No entanto, continuou por muito tempo a ensinar sobre as luzes da civilização, os povos mais jovens do Mediterrâneo (Gregos e Romanos, entre outros). Durante toda a Antiguidade se manteve como a terra clássica recebendo peregrinações de povos vindos do Mediterrâneo, interessados em beber na fonte dos mais antigos conhecimentos: científicos, religiosos, morais, e sociais, que a humanidade já havia adquirido.

O vento pagão que animava a civilização greco-romana estava esgotado no século IV. Dois novos fatores: o cristianismo e as invasões bárbaras passaram a interferir no antigo terreno da Europa Ocidental, para dar origem a uma nova civilização, a mesma que nos dias de hoje mostra sintomas de esgotamento. Esta última civilização, que herdou os progressos técnicos da humanidade graças aos contatos ininterruptos entre povos, já contava no século XV, com uma suficiente bagagem técnica para lançar-se a saga do descobrimento e conquista do mundo.

Foi assim que, desde o século XV, os portugueses atacaram a África pelo oceano Atlântico: eles estabeleceram os primeiros contatos modernos, desde então não quebrados, com o Ocidente.

O que eles encontraram, daquele lado da África? Quais povos eles encontraram?  Estavam ali desde a Antiguidade mais remota ou eram imigrantes recentes? Qual era o seu nível cultural, seu grau de organização social e política, em poucas palavras, qual seu estado de civilização? Quais impressões os portugueses tiveram daquelas populações? Que ideia eles obtiveram de suas capacidades intelectuais e aptidões técnicas? Que tipo de relações sociais passaram a existir entre a Europa e África a partir desse momento? De que forma tais ligações evoluíram constantemente?

As respostas a estas diversas perguntas irão explicar bem a atual lenda do Negro primitivo.

Para responder tais perguntas, é necessário situar-se no Egito do momento em que caiu sob o jugo estrangeiro.

A distribuição dos negros no continente africano, provavelmente, passou por duas fases fundamentais. É comumente aceite que, a seca do Sahara ocorreu por volta de 7000 AEC. Muito provavelmente, nesta época a África Equatorial continuava sendo uma zona de florestas muito densas, para atrair os homens. Consequentemente, os últimos Negros que viviam na Sahara agora o abandonaram para emigrar em direção ao Alto Nilo, com exceção de alguns pequenos grupos isolados no resto do continente, ou que haviam emigrado para o sul, ou que tinham se dirigido para o norte[3]. Talvez o primeiro grupo houvesse encontrado uma população autóctone negra na região do Alto Nilo. De uma maneira ou de outra, foi a partir da adaptação progressiva às novas condições de vida que a natureza foi permitindo a essas várias populações, que o mais antigo fenômeno de civilização que a terra havia conhecido, surgiu. Esta civilização, chamada de Egito em nossa época, desenvolveu-se por um longo tempo em seu berço original; para em seguida, descer lentamente ao Vale do Nilo para se espalhar em torno da bacia do Mediterrâneo. Este ciclo de civilização, a mais longa da história, provavelmente durou 10.000 anos, provavelmente entre a larga cronologia (Heródoto, Manetón[4], segundo os sacerdotes egípcios que situaram a origem do Egito por volta do ano 17.000 AEC), frente a curta cronologia dos modernos, que se viram obrigados a admitir que por volta de 4.425 AEC, os egípcios já haviam inventado o calendário, o que requer necessariamente a passagem de milhares de anos.

 Obviamente, durante esse longo período, os Negros poderiam ter penetrado mais e mais para o interior do continente para formar núcleos que se tornariam centros da civilização continental (analisados no Capítulo 5).

Essas civilizações Africanas ficaram cada vez mais isoladas do resto do mundo:  eles tenderiam viver em isolamento, devido à enorme distância que as separava das rotas de acesso para o Mediterrâneo. Quando o Egito perdeu a sua independência, o seu isolamento foi completo.

Cortados os vínculos com o a mãe pátria, invadida por estrangeiros, os Negros recuaram para um ambiente geográfico restrito, o que exigia menos esforço de adaptação e melhores condições econômicas. Como consequência, os Negros se voltaram para o desenvolvimento de sua organização social, política e moral, ao invés das investigações científicas especulativas, dado que as circunstancias não justificavam, e ainda impossibilitavam tais ações. A Adaptação ao fértil Vale do Nilo necessitava de técnicas especializadas em irrigação, [construção] de barragens, cálculos precisos para prever as cheias do Nilo e as suas consequências econômicas e sociais. Decorrências que impulsionaram a materialização de invenções como a geometria, para delimitar as propriedades daqueles que coabitavam nas áreas que tiveram seus limites apagados pelas inundações; ou transformar a velha enxada paleonegrolítica[5] num arado, puxado inicialmente por pessoas e posteriormente pelos animais, a fim de explorar as longas léguas de terrenos plano [das zonas aluviais[6]], enquanto tudo isto era indispensável para a vida material do Negro no Vale do Nilo, tornando-se supérfluo às novas condições de vida no interior do continente.

A história interrompeu o antigo equilíbrio com o meio ambiente, mas o Negro reencontrou o equilíbrio, que diferente do primeiro, pela ausência de técnica, que já não tinha importância vital para a organização social, política e moral.

Com recursos econômicos assegurados por meios que não exigiam invenções incessantes, o Negro progressivamente tornou-se indiferente ao progresso material. Foi neste estágio de civilização que se deu o encontro com a Europa se deu. No século XV, quando os primeiros marinheiros  e comerciantes portugueses, holandeses, ingleses, franceses, daneses ou alemães ( como os mercadores de Brandeburgo) começaram a criar postos de comércio na costa Ocidental da África, a organização política dos Estados africanos era igual, e muitas vezes superior, à de seus próprios a dos seu homólogos europeus. As monarquias já eram constitucionais, com um Conselho do Povo,  no qual os diversos estratos sociais estavam representados. E o rei Negro, ao contrário da ‘lenda’, nunca foi, um déspota com poderes ilimitados. Em alguns lugares, era o povo que o investia através da mediação de um Primeiro Ministro que representava os homens livres. Sua missão era servir o povo com sabedoria e sua autoridade dependia de seu respeito pela Constituição estabelecida (ver a primeira parte do Capítulo 5, assim como a descrição da monarquia constitucional de Cayor. p. 518-519).

As ordens social e moral estavam no mesmo nível de perfeição. Em nenhuma parte reinava uma mentalidade pré lógica, no sentido que entendia Lévi­-Bruhl, e não é necessário refutar aqui uma se renegada pelo seu próprio autor antes da sua morte. Pelo contrário, por razões já abordadas, o desenvolvimento técnico foi menos acentuado do que na Europa. Embora o Negro tivesse sido o primeiro a descobrir o ferro, não construiu canhões; o segredo da pólvora só era conhecido pelos sacerdotes egípcios, que o usaram exclusivamente para fins religiosos em ritos, como os Mistérios de Osiris (cf. Recherches su les Egyptiens et les Chinois, de Cornelius de Pauw).

A África era, portanto, muito vulneráveis do ponto de vista técnico. Tornou-­se uma presa tentadora, irresistível para o Ocidente, provido de armas de fogo e da tecnologia necessária para empreender viagens marítimas de largas distâncias.

Assim, o progresso econômico da Europa renascentista estimulou a conquista de África, que foi rapidamente materializada[7]. Passando a fase de postos de negociações costeiras para anexações entidades e acordos internacionais com os Ocidentais, inicia-se a fase de conquista do interior por meio das armadas, um processo de “pacificação, tal como programavam eufemisticamente os agressores.

No início deste período a América foi descoberta por Cristóvão Colombo e as sobras do Velho Mundo foram derramadas sobre o Novo. O desenvolvimento de terras virgens necessitava de mão de obra barata. A África indefesa, tornou-­se o reservatório humano indicado para obter a força de trabalho, diminuindo custos e minimizando riscos. O moderno tráfico de escravos se transformou em uma necessidade econômica antes da chegada das  máquinas. O que durou até meados do século XIX.

Essa inversão de papéis, derivada das novas relações tecnológicas, trouxe consigo, no plano social, o surgimento de relações senhor – escravo entre o Brancos e Negro. Na Idade Média, a memória de um Egito Negro, que tinha civilizado do mundo havia sido obscurecida em consequência da ignorância da antiga tradição, escondida em bibliotecas ou enterrada sob ruínas. E o esquecimento chegou a ser total durante os quatro séculos de escravidão.

Inflados por sua recente superioridade técnica, os europeus desenvolveram um menosprezo a priori pelo mundo negro, de onde somente tomavam as riquezas [naturais]. Uma série de fatores predispunham o espirito europeu a falsear completamente a personalidade moral do Negro e suas atitudes intelectuais: a ignorância da história antiga dos Negros, a diferença de costumes e hábitos, os preconceitos étnicos entre duas raças que acreditavam estar frente a frente, pela primeira vez, junto com a necessidade econômica da exploração de uma, a negra, pela outra, a branca.

 A Partir de então, “Negro” passou a ser sinônimo de “primitivo”, “inferior”, “dotado de uma mentalidade pré-lógica”. E como o ser humano está sempre ansioso para justificar sua conduta, eles foram ainda mais longe. O desejo de legitimar a colonização e o tráfico de escravos – em outras palavras, a condição social do Negro no mundo moderno – engendrou toda uma literatura para descrever os então ­chamados caracteres inferiores do Negro. A mente de várias gerações de europeus, se manteve progressivamente ofuscada. A opinião Ocidental foi sendo cristalizada e, aceita instintivamente como verdade revelada a concepção do Negro como uma humanidade inferior[8].

Para coroar este cinismo, a colonização foi retratada como um dever da humanidade. Eles invocam a “missão civilizadora” do Ocidente, responsável por elevar o Africano ao nível dos demais homens. A partir de então, o capitalismo teve liberdade para praticar a mais feroz exploração sob o disfarce de pretextos morais.

No máximo, eles reconheceram que o Negro tinha alguns dons artísticos ligados à sua sensibilidade como um animal inferior. Esta era a opinião do francês Joseph de Gobineau, precursor da filosofia nazista. Em seu célebre livro De l’ inegalité des races humaines, decretou que o senso artístico é inseparável do sangue dos Negros; ao mesmo tempo que reduziu a arte a uma manifestação inferior da natureza humana, vinculando-a em particular, ao senso de ritmo das aptidões emocionais do Negro.

Esse clima de alienação finalmente afetou profundamente a personalidade do Negro, especialmente o Negro instruído, que teve a oportunidade de tomar consciência da opinião pública mundial sobre ele e seu povo. É muito frequente que o intelectual Negro perca a confiança em suas próprias possibilidades e nas de sua raça, de tal ponto que, apesar da validade das provas apresentadas neste estudo, não será surpreendente se alguns de nós ainda formos incapazes de acreditar que os Negros realmente desempenharam o mais antigo papel civilizador no mundo.

Frequentemente, Negros de altas realizações intelectuais permanecem tão vitimados por esta alienação que eles procuram de boa-fé codificar essas ideias nazistas de uma suposta dualidade do Negro sensível e emotivo, criador da arte, e do Branco, especialmente dotado de racionalidade[9]. Por isso, é de boa-fé que um poeta negro africano expressou­-se em um verso de beleza admirável:

“L’émotion est nègre et la raison hellène”.

(A Emoção é Negra e a razão Grega.)

Léopold Sédar Senghor

Pouco a pouco, uma literatura negra “complementar” foi sendo criada, intencionalmente pueril, bem-humorada, passiva, choramingante, resignada. E é assim como na atualidade, um conjunto de criações artísticas Negras, altamente apreciadas por ocidentais, não deixa de construir um espelho no qual estes ocidentais podem contemplar com orgulho, o que acreditam ser sua superioridade, enquanto se abandonam a um sentimentalismo paternalista. A reação seria muito diferente se os mesmos juízes fossem confrontados por uma obra Negra perfeitamente acabada, que rompeu tal padrão e quebrou com quaisquer reflexos de subordinação, bem como complexos de inferioridade. Uma obra assim correria o risco de parecer pretensiosa e agressiva, intolerável, por muitos.

A memória da recente escravidão pela qual a raça Negra foi sujeitada, mantida viva na mente dos homens e, especialmente, nas mentes Negras, muitas vezes, afeta negativamente a consciência destes últimos. A partir da dita experiência da recente escravidão e evidentemente contra toda verdade histórica, foi feito um esforço para construir a lenda, segundo a qual, o Negro sempre foi escravizado pela superior raça Branca, com a qual ele conviveu, onde quer que fosse. Tal lenda permite aos Brancos facilmente justificar a presença de Negros no Egito ou na Mesopotâmia ou Arábia, desde a mais remota antiguidade: basta decretar que eram escravos. Embora tal afirmação não seja mais do que um dogma concebido para falsificar a história – e cuja falsidade não escapa aqueles que a propõem, mas não deixam de contribuir para alienar a consciência negra. Assim, outro grande poeta Negro, talvez o maior do nosso tempo, Aimé Césaire, escreve, em um poema intitulado:

  “Desde Akkad, desde Elam, desde Sumer”

   [Desde Acádia, Desde Elam, Desde Suméria]

Mestre das três caminhos, perante vós está um homem que tem andado muito. Mestre das três caminhos, perante vós está um homem que andou sobre as mãos, andou sobre o pé, andou  sobre sua barriga, andou sobre sua bunda, Desde Elam, desde Acádia, desde a Suméria[10].

Em outro escreve:

Os que nem inventaram a pólvora, nem a bússola,

os que jamais souberam domar nem o vapor nem a eletricidade,

os que não exploraram nem o mar nem o céu…[11]

Ao longo destas transformações nas relações do Negro com o resto do mundo, aqueles que ignoravam a grandeza do passado dos Negros – incluindo os próprios negros -, encontravam cada dia mais dificuldade e, até não admitiam, que os Negros poderiam ter sido a origem  da primeira civilização que se propagou pela terra e a qual a humanidade deve o que tem origem em seu progresso.

Desde então, apesar das provas que vão se acumulando diante dos olhos dos especialistas, as evidências têm sido percebidas através de antolhos ideológicos, e com interpretações consequentemente falsificadas. Eles construíram as teorias mais improváveis, e qualquer disparate para eles, parecia mais lógico do que a verdade contida no mais importante documento histórico, atestando o inicial papel civilizador dos Negros. Antes de examinar as contradições que tiveram lugar e circularam na era modernas, resultado das tentativas de provar a qualquer preço que os egípcios eram da raça branca, notemos o espanto de um estudioso de boa­ fé, o conde de Constantin Volney (1757-­1820), que esteve no Egito entre 1783 e 1785, ou seja, em meados do período Escravagista, no que diz respeito a quem foram os Negros. Depois de ter ciência, como seus contemporâneos, de todos os preconceitos a respeito do Negro que acabamos de ver, ele relatou as seguintes constatações sobre os coptas pertencentes a mesma raça egípcia de onde nasceram os Faraós:

…todos têm um rosto inchado, olhos inchados, nariz achatado, lábios grossos; Em uma palavra, o verdadeiro rosto de mulato. Fiquei tentado a atribuir ao clima, mas quando eu visitei a Esfinge, a sua aparência deu-me a chave para o enigma. Ao ver a cabeça, característica de um Negro, em todos os detalhes, lembrei-me da passagem notável, onde Heródoto diz: “Quanto a mim, eu julgo os Cólquidas, como uma colônia dos egípcios, porque, assim como eles, tem a pele negra e os cabelos de lanosos…Em outras palavras, os antigos egípcios eram verdadeiros Negros do mesmo tipo que todos os nativos africanos. E a partir dessa época pudemos ver como o seu sangue, misturado durante vários séculos com o dos romanos e gregos, deve ter perdido a intensidade de sua cor original e, manter, no entanto, a marca de seu molde inicial. Podemos até afirmar um alcance muito geral a esta observação e propor em princípio, que a fisionomia é uma espécie de monumento próprio que, em muitos casos, permite atestar ou lançar luz aos testemunhos da história sobre as origens dos povos.

Depois de ter ilustrado semelhante proposição geral a partir do exemplo dos normandos, que 900 anos depois da conquista da Normandia ainda se parecem com os daneses (dinamarqueses), Volney acrescenta: 

Mas voltando ao Egito, a lição que ela ensina para a história contém muitas reflexões para a filosofia. Mas que assunto para meditação! Que resulta da visão da atual barbárie e ignorância dos coptas, oriunda da aliança entre o profundo gênio dos egípcios e a mente brilhante dos gregos. Só de pensar que essa raça de homens negros, hoje nossos escravos e o objeto de nosso desprezo, é a mesma raça à qual devemos as nossas artes, ciências e até mesmo o uso da fala. De imaginar, finalmente, que é do meio de povos que se dizem os maiores amigos da liberdade e da humanidade que se aprovou a mais bárbara das escravidões, profundamente problemática, se os homens negros têm o mesmo tipo de inteligência que os brancos![12]

[1] Em vitude do trabalho de Diop ser objetivamente político, no sentido de reivindicar uma narrativa histórica não eurocêntrica, optei por usar o marcado temporal Antes da Era Comum ao invés de Antes de Cristo.

[2] Diop se baseia num ponto médio entre o que ele chama de cronologia cortada (que segundo o autor situaria o início da civilização egípcia em 4425 A.E.C) e cronologia larga (por volta de 17.0000 A.E.C), em função dos períodos de observação rigorosa da aurora sothíaca, considerada intrínseca às primeiras menções das escritas do calendário egípcio. Ver p.77, 163-164, 171. N.T.).

[3] O que nós encontramos no Sahara demonstra que era habitado por negros: Corpos femininos com esteatopígicos, como dizem os etnólogos, ou para descrever como Jean Temporal, “com as partes trazeiras bastante cheias e arredondadas” [moufflètes, no original]. Ver: MONOD,  Théodore. Méharées, exploration au vrai Sahara (Paris: Ed.” Je Sers “, 1937, p. 108). (…) Camponeses, talvez camponeses Negros, inumeráveis bois, campos milho, panelas de terracota, pescado fresco, uma abundância de atividades, uma paisagem verde, e canoas muito bem construídas. Era muito bonito. Mas, isso não era para durar. O período úmido havia sido precedido por um período desértico, estéril, que seria gradualmente substituído por uma nova dessecação…[O deserto] ia reconquistar seu reino, drenando lagos, secando grama, obliterar o campo. E os campesinos? Tempos difíceis para eles e sérios debates no Parlamento: deviam eles permanecer lá e morrer in situ, ou emigrar ou se adaptar? Ninguém optou pelo suicídio, a adaptação não conseguiu um único voto, a escolha unânime foi o êxodo” (Ibid., p. 128). Os esqueletos pré-históricos encontrados no deserto do Saara são do tipo Negro: o homem de Asselar, ao sul do Saara [falado pelo próprio T. Monod, no município de Essouk, no Aldrar dos Iforas (Mali) ]. 

[4] Maneton de Sabennytos, um sacerdote Egípcio (século III a.C.), que escreveu uma crônica sobre o Egito em Grego.

[5] Nome utilizados para se referir a um antigo substrato populacional negro, anterior e precursor das históricas civilizações africanas, talvez sobre toda a região do Sahel (num sentido bem amplo, de oceano a oceano) (N.T.).

[6] As planícies aluviais são formações geológicas que se caracterizam por serem planas ou muito pouco inclinadas. Formam-se pela deposição ao longo do tempo de sedimentos trazidos por um ou mais rios, criando um solo aluvionar constituído de argila, silte e areia.

[7]A conquista propriamente dita aconteceu no final do século XIX (bem posterior ao colonialismo americano ou asiático). Todavia, o contato com o Ocidente, iniciado no século XV, centrou-se rapidamente –  sobretudo s partir do século XVII – no tráfico de escravos, que teve efeitos devastadores no continente africano. (N.T.)

[8] Vejamos como é a definição de negro/negra que aparece na edição de 1905 do Nouveau Dictionnaire Ilustré Larousse (p.516): (latim, niger, negro), homem/mulher com pele negra. Este é o nome dado especialmente para os habitantes de alguns países da África… que formavam uma raça de homens negros inferiores em inteligência ao branco ou raça caucasiana”.

[9] Se, com os gregos e as autoridades mais competentes sobre o assunto, concordam que a exaltação e entusiasmo são inseparáveis do gênio artístico, e que o gênio, quando completo, beira a loucura [aqueles que abençoam], não será em nenhum sentimento organizador ou sábio de nossa natureza, onde iremos buscar a causa da criatividade, mas sim no fundo da agitação dos sentidos,                                        nos golpes ambiciosos que os levam a misturar o espírito com as aparências, a fim de produzir algo mais agradável do que a realidade… Assim, chegamos a irremediável conclusão: a fonte das artes é estranha aos instintos civilizatórios. Ela está escondida no sangue dos Negros . . .  Se dirá que é uma coroa muito linda que colocam na deformada cabeça do Negro, uma honra muito grande para ele ter o harmonioso coro das musas rodeado em torno dele. No entanto, a honra não é tão grande. Eu não disse que todos os Piérides [Muss e também filhas de Piero que desafiaram as Musas e acabaram convertidas em pássaros] estiveram reunidas lá: faltam os mais nobres, aqueles que se apoiam na reflexão, aqueles que preferem a beleza à paixão… se traduzíssemos os versos da Odisseia e em especialmente o encontro de Ulisses e Nausícaa, a sublimação da inspiração reflexiva, ele iria cair no sono [o Negro]. Pois para a simpatia ser despertada em qualquer ser humano, a sua inteligência primeiro deve ter compreendido, e é aí que reside a dificuldade com o Negro… A sensibilidade artística deste ser, embora poderosa mas, além de qualquer expressão, necessariamente continuará a ser limitada aos usos mais miseráveis. . . E assim, a música ocupa o primeiro lugar entre as artes preferidas pelas criatura melânicas, visto que acaricia seus ouvidos com uma sucessão de sons e não exige nada da parte racional de seu cérebro. O negro gosta muito de música e disfruta dela em excesso. Porém, alheio as sutis convenções, através das quais a imaginação europeia aprendeu a enobrecer sensações.

A afinação encantadora de Paolino, do “Matrimônio Secreto” [opera bufa de Doménico Cimarrosa], pria che spunti in ciel’l’aurora, etc., a sensualidade do Branco ilustre, guiada pela ciência da reflexão, faz um quadro desde os primeiros compassos (segue o quadro). Sonho delicioso! Os sentidos despertam suavemente o espírito e o eleva as esferas ideais, onde o gosto e a memória o oferecem a parte mais requintada de seu prazer. O Negro não vê nada disso, não percebe o menor resquício e, se por acaso conseguimos despertar seus instintos, o entusiasmo e a emoção serão muito mais intensos   que o nosso êxtase reprimido, que nossa satisfação de gente honrada. Imagine um Bambara [grupo étnico maioritário no atual Mali] ouvindo uma das interpretações de uma das melodias que lhe agrada. Seu rosto se ilumina, seus olhos brilham. Ele ri com sua boca larga, brilhante em seu rosto escuro, mostra seus brancos dentes pontiagudos. Chega no gozo… Inarticulados sons tentam escapar de sua garganta, comprimida pela paixão, grandes lágrimas escorrem de suas gordas bochechas; Um pouco mais e ele gritará. Quando a música para; ele está exausto. Com os nossos hábitos refinados, nós fizemos da arte algo tão intimamente ligado com sublimes meditações mentais e ideias científicas, que é apenas por abstração e certo esforço que somos capazes de incluir a dança, entre as artes. Para o Negro, pelo contrário, a dança é como a música, o objeto da paixão mais irresistível. Isto porque a sensualidade significa quase tudo, senão tudo, na dança. Consequentemente, o Negro possui em si, o mais alto grau da faculdade sensual, sem a qual nenhuma arte é possível. Por outro lado, a ausência de aptidões intelectuais o torna completamente alheio a cultura da arte, incluindo a apreciação do trabalho mais elevado que pode ser produzido por esta nobre aplicação da inteligência humana. Para agregar valor a suas faculdades, ele deve se unir com uma raça distintamente dotada.

O Gênio artístico, similarmente estranho para os três grandes tipos {raças}, apareceu apenas como resultado da união entre Brancos e Negros. – Conde de Gobineau, Comte de Gobineau, Essai sur Pinégalité des races humaines. (Paris: 1853, Bk. 11, Cap. VII, primeira edição).                 

[10]CÉSAIRE, Aimé. Soleil cou coupé. Paris: Editions K, 1948, pág. 66.

[11] CÉSAIRE, Aimé. Return to My Native Land. trad. Emile Snyders. Paris: Présence Africaine, 1968. p. 99 e 101. Apesar desta citação, não atenuei em absoluto a profunda admiração que tenho pelo autor.

[12] VOLNEY, C. F. Voyages en Syrie et en Egypte. Paris, 1787. (I).p. 74 – 77.

er p.77, 163-164, 171. N.T.).

Capítulo II do Livro Natrion Nègres et Cultura de Cheikh Anta Diop, Paris: Editora Presence Afriqueine, 1955.

Traduzido por Kaká Portilho** para uso didático no Grupo de Estudos Cheikh Anta Diop Vida e Obra – Módulo III, realizado em outubro de 2020, pelo CEPA – Centro de Altos Estudos e Pesquisas AfroPindorâmicas. 

** Kaká Portilho é pesquisadora internacionalista e coordena o CEPA, integrando estudo entre a Univerkizai/UKAY, Ibadan of University (Nigéria) e ISPTEC (Angola).

Ouça o capítulo na íntegra em nosso canal https://youtu.be/tCxTfPx6C_A

Baixe o texto integral neste link https://www.academia.edu/44386573/Nascimento_do_Mito_do_Negro_C_A_Diop_tradu%C3%A7%C3%A3o_do_livro_Nations_Negr%C3%A8s_et_Culture

Ajude-nos a manter nossas pesquisas e estudos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima