QUEM FORAM OS EGÍPCIOS?

QUEM FORAM OS EGÍPCIOS?[1]

Cheikh Anta Diop

tradução Kaká Portilho[2].

As evidências nas obras de escritores e filósofos da Antiguidade e na bíblia judaico-cristã

            Os contemporâneos dos antigos egípcios, os mesmos que nos deixaram seus testemunhos, nunca se fizeram a pergunta que titula este capítulo. Testemunhas oculares desse período afirmam formalmente que os egípcios eram negros. Em várias ocasiões, Heródoto enfatizou as caraterísticas negras dos egípcios; inclusive recorreu a elas para construir algumas demonstrações indiretas. Por exemplo, para provar que as cheias do Nilo não poderiam ser causadas pelo degelo, ele nos ofereceu argumentos que considerava válido: “É certo que os nativos do país são negros por causa do calor…”[3]. Para demonstrar que o oráculo grego era de origem egípcia, Heródoto descreve outro argumento:  “… e quando falavam que a pomba era negra, eles [os dodonaeanos] nos davam a entender que a mulher era egípcia[4]. As pombas em questão representavam duas mulheres egípcias que foram raptadas e tiradas de Tebas para fundar os oráculos de Dodona e Líbia (Oasis de Júpiter Amón).

         Para demonstrar que os habitantes da Cólquida[5] eram de origem egípcia e que deveriam considerá-los uma fração do exército de Sesóstris, que havia se instalado na região, Heródoto disse: “Os egípcios disseram que consideravam os Cólquidas como descendentes de uma parte do exército de Sesóstris”. Minhas próprias conjecturas foram fundadas, em primeiro lugar, sobre o fato de que eles são de pele negra e têm cabelo lanoso[6]

          Finalmente, com relação à população da Índia, Heródoto distingue os padeanos[7] do restante dos indianos, descrevendo-os da seguinte maneira:

Todos eles também têm o mesmo tom de pele, que se aproxima dos etíopes (…) Esses homens (…) negros têm uma pele que lembra a dos etíopes. Esse tipo de indiano está bem distante dos persas; moram em direção ao sul e nunca foram submetidos por Darío[8].

Diodoro da Sicília escreve:

Os etíopes dizem que os egípcios são uma das suas colônias, que foi levada para o Egito por Osíris. Eles ainda alegam: “No início do mundo, este país (Egito) não era mais que um mar, porém, o Nilo, com suas cheias, arrastou muita lama da Etiópia, compactando o que acabou se transformando em uma parte do continente…”  Alegam ainda que os egípcios constituíram a maior parte de suas leis, de seus progenitores e ancestrais etíopes; e, a partir deles, os egípcios aprenderam a reverenciar reis como se fossem deuses, e enterrá-los com bastante pompa; a escultura e escrita foram inventadas pelos etíopes. Os etíopes citam evidências de que eles são mais antigos do que os egípcios, mas não vale a pena relatar aqui[9].

Se os egípcios e os etíopes não fossem da mesma raça negra, Diodoro não teria sublinhado a impossibilidade de se considerar os primeiros como uma colônia (ou seja, uma fração) desses últimos e a impossibilidade de vê-los como ancestrais dos egípcios.

Em Geografia[10], Estrabão mencionou a importância das migrações das populações na História e, acreditando que esse movimento havia se dado no sentido inverso ao apontado por Diodoro, observa que: “Os egípcios se estabeleceram na Etiópia e na Cólquida”[11].

Mais uma vez, é um grego e chauvinista que nos informa que os egípcios, etíopes, e cólquidas pertencem à mesma raça, confirmando assim o que Heródoto havia dito sobre os cólquidas[12].

Podemos dizer que Gaston Maspéro resume a opinião de todos os escritores da Antiguidade sobre a raça egípcia:

Segundo o testemunho quase que unânime dos historiadores da Antiguidade, eles pertenciam a uma raça africana, ou seja, negra, a qual primeiro se estabeleceu na Etiópia, no Médio Nilo. Seguindo o curso do rio, eles gradualmente desceram atingindo o mar… Além disso, a bíblia relata que Mesraím, filho de Cam (Ham), irmão de Kush o etíope de Canaã, veio da Mesopotâmia para se estabelecer com seus filhos sobre as margens do Nilo[13].

De acordo com a Bíblia, o Egito foi povoado por descendentes de Cam, ancestral dos negros: “Os descendentes de Cam são Kush, Mesraím, Punt e Canaã. Os filhos de Kush são: Saba, Havila, Sabata, Raema e Sabteca… Kush também foi o pai de Nimrod. Ele foi o primeiro a ser conquistador sobre a terra…[14]

Mesraím designa como Egito os povos do Oriente na região próxima a: Canaã, toda a Costa da Palestina e Fenícia; Sennar[15], que era provavelmente o ponto de partida de Nimrod quando foi para a Ásia Ocidental, todavia indica o Reino da Núbia[16].

Qual é o valor dessas declarações? Vindo de testemunhas oculares da cultura ocidental dificilmente poderiam ser falsas. Heródoto pode ter se equivocado quando informava sobre os costumes de um povo, ou quando ele usa o reducionismo racionalista ocidental para explicar um fenômeno incompreensível ao seu contexto cultural, mas é preciso admitir que ele era capaz de reconhecer a cor da pele dos habitantes dos países os quais ele visitou. Além disso, Heródoto não era um historiador crédulo que registrava tudo sem alguma verificação; ele sabia como pesar as coisas. Quando ele se deparava com uma opinião que não partilhava, ele sempre tinha o cuidado demonstrar sua posição contrária. Assim, referindo-se aos costumes dos escitas e neuros[17] ele escreve a propósito dos últimos:

Parece que essas pessoas são feiticeiras. Tanto os escitas quanto os gregos que moram na Escítia, acreditam que os neuros, uma vez por ano se transformam em lobos por alguns dias, para voltar posteriormente à sua antiga forma. Não que eu acredite nisso, mas eles [escitas] constantemente afirmam que é verdade, e estão mesmo dispostos a proferir juramento para dar credibilidade ao fato[18].

Ele sempre distinguia de maneira cautelosa o que havia visto e aquilo que o contaram. Depois de sua visita ao Labirinto[19] no Egito, ele escreve:

Existem dois tipos diferentes de câmaras. Mil e quinhetas debaixo da terra e mil e quinhentas por cima, totalizando três mil. Sendo que as últimas foram construídas sobre as primeiras. As câmaras superiores, eu mesmo visitei. São certezas da minha observação, o que eu digo a respeito delas. Quanto às câmaras subterrâneas, eu só posso falar a partir do que me disseram. Os guardiões do Labirinto não permitiram que eu as visitasse porque, segundo eles, elas serviam de sepultura para os sepulcros dos Reis que construíram o Labirinto, e também os dos crocodilos sagrados. Assim, é a partir do que os outros me informaram a respeito das câmaras subterrâneas que eu posso falar. As câmaras superiores, no entanto, eu vi com meus próprios olhos e considero como as maiores construções humanas[20].

Era Heródoto um historiador privado de lógica, incapaz de penetrar fenômenos complexos? Pelo contrário, as suas explicações sobre as cheias do Nilo revelam uma mente racionalista em busca de explicações científicas para fenômenos naturais. Vejamos:

Porém, depois de avaliar todas as opiniões que foram apresentadas sobre esse assunto, é necessário que eu mesmo declare o que penso sobre todos esses temas obscuros. Direi que me parece que o Nilo enche no verão porque no inverno, o sol é desviado de seu curso pelo rigor da estação e dirige-se para a parte superior da Líbia. Em poucas palavras, eis aqui a razão das cheias e inundações, e da existência desse Deus [o Sol] que quanto mais se aproxima de um país, mais ele seca, interrompendo as correntes fluviais que alimentam os rios.

Vou explicar, com maiores detalhes esse caso. O ar está calmo na região superior da Líbia[21]. Sempre faz calor com ausência de ventos frios. O sol em sua passagem pelo país, costuma produzir o mesmo efeito do verão quando alcança o meio do céu: atrai vapores de água. E depois de atraí-los, ele os recua para lugares mais altos, onde os ventos os recebem, dispersando-os e dissolvendo-os em forma de chuva. Por essa razão, é fato que os ventos que sopram do país, como o Sul e o Sudoeste, são os mais chuvosos de todos. Na minha opinião, o sol não devolve toda a água que ele atrai do Nilo durante o ano, mas retém uma parte dessa[22].

Esses três exemplos demonstram que Heródoto não era, em absoluto, um passivo replicador de bobagens e contos incríveis, ou um “um mentiroso”. Pelo contrário, ele era bastante escrupuloso, objetivo, científico para a sua época. Por que alguém deveria buscar desacreditar tal historiador, para fazê-lo parecer ingênuo? Por que “re­fabricar” história, apesar de suas evidências explícitas?

Vemos-nos, então, obrigados a acreditar que tal imperscrutável razão que pode ter impulsionado (os experts) a agir dessa forma são os relatos de Heródoto como testemunha ocular sobre os egípcios serem negros.  Além disso, o fato de ele ter demonstrado com uma rara honestidade (entre os gregos) que a Grécia havia tomado do Egito todos os elementos de sua civilização, incluindo o culto aos deuses; e [o fato de ele ter admitido com a mesma integridade] que o Egito foi o berço da civilização.

Por outro lado, as descobertas arqueológicas continuamente justificam Heródoto contra seus detratores. Assim, Christiane Desroches­Noblecourt escreve sobre recentes escavações em Tanis[23]:

Heródoto tinha visto as câmaras exteriores desses sepulcros e os descreveu [trata-se do Labirinto, mencionado anteriormente]. Pierre Montet acabou provando mais uma vez que “o Pai da História não mentiu”[24].

Pode-se objetar que, no século V A.E.C. (Antes da Era Comum), quando Heródoto visitou o Egito, a civilização egípcia já tivesse mais de 10.000 anos e a raça negra como se encontrava lá não era a mesma que existira anteriormente. Mas, como iremos ver, toda a história do Egito mostra que a mestiçagem das populações primitivas, com os nômades brancos, conquistadores ou comerciantes, foi se tornando cada vez mais intensa e importante mais próximo do fim do Antigo Egito. De acordo Cornelius de Pauw, na Época Baixa, o Egito estava saturado com colônias de estrangeiros da raça branca: árabes em Coptos, os líbios localizados na futura Alexandria, judeus nos arredores da cidade de Hércules (avaros), babilônios (persas) abaixo de Memphis, “troianos fugitivos” na área das grandes pedreiras a leste do Nilo, cários[25] e jônios próximo ao braço Pelúsiaco (do Delta)[26]. Psamético[27], no fim do século VII AEC coroou essa invasão pacífica, confiando a defesa do Egito nas mãos de mercenários gregos.

Um enorme erro do Faraó Psamético foi confiar a defesa do Egito às ‘tropas estrangeiras’, além de introduzir várias colônias formadas pela escória das nações[28].

Sob a última dinastia Saíte, os gregos se estabeleceram oficialmente em Naucratis, o único porto onde os estrangeiros tinham direito de comercializar[29] .

Após a conquista do Egito por Alexandre, sob os Ptolemeos, a mestiçagem entre gregos brancos e egípcios negros ganhou a amplitude de uma política de assimilação:

Em nenhum lugar Dionísio foi mais mimado, em nenhuma parte foi achado um culto mais adulado e mais rico entre os ptolomaicos, que reconheceram seu culto como um meio especialmente eficaz para promoção da assimilação dos conquistadores gregos e sua fusão com nativos egípcios[30].

Esses fatos demonstram que, se o povo egípcio tivesse sido branco em suas origens, não haveria outro remédio a não ser manter-se branco na ampliação da mestiçagem:  Se, todavia, Heródoto o encontrou ainda negro, depois de tantos cruzamentos com estrangeiros brancos, estamos diante de um povo originalmente negro em seus primórdios.

Na medida em que temos acesso aos testemunhos inscritos na bíblia judaico-cristã, podemos problematizar algumas questões. Em que medida valem os testemunhos bíblicos? Para responder a essa pergunta necessitamos examinar a gênese do povo judeu: Quem é o povo judeu? Como surgiram? Como elaboraram a literatura bíblica? Em qual descendência de Cam, os ancestrais negros foram amaldiçoados? Qual a razão histórica dessa maldição?

Aqueles que se tornariam os judeus eram apenas 70 pastores incultos e atemorizados quando entraram no Egito expulsos da Palestina por causa da fome. Esses antecessores dos judeus foram atraídos pelo paraíso terrestre que era o Vale do Nilo.

Embora os egípcios tivessem um horror particular pela vida nômade dos pastores, os predecessores dos judeus forma bem recebidos graças a José. De acordo com a Bíblia, eles se estabeleceram na terra de Gosen[31] e se tornaram pastores dos rebanhos do Faraó… Depois da morte de José e do Faraó “Protetor”, e diante da proliferação dos judeus, os egípcios adotaram uma outra postura, tornando-se hostis, consequência de circunstâncias que ainda não foram bem definidas. Então, a condição de vida dos judeus se tornou cada vez mais e mais difícil: se quisermos acreditar na bíblia, eles foram empregados nas obras de fundação, servindo como mão de obra para a construção da cidade de Ramsés. Os egípcios haviam tomado medidas para limitar o número de nascimentos e eliminar bebês do sexo masculino, cautelosos para que a minoria étnica não se expandisse a ponto de representar um perigo nacional, ou um contingente populacional que poderia aumentar as fileiras inimigas, em períodos de guerra.

Os filhos de Israel foram fecundos e se multiplicaram. Cresceram e se tornaram cada vez mais poderosos. O país se encheu deles. Sobre o Egito se levantou um novo Rei que não conhecia José. Disse ao seu povo: “eis aqui o povo de Israel que formará um povo mais numeroso e mais poderoso que o nosso. Vamos ser cautelosos: evitaremos que aumentem, pois, caso aconteça uma guerra, eles podem se unir aos nossos inimigos para nos enfrentar e, em seguida, deixarão o país”. E estabeleceu capatazes a fim de oprimí-los com trabalhos penosos. E, assim, o povo de Israel construiu para o faraó as cidades-armazém de Pithom e de Ramsés. Mas, quanto mais eles eram oprimidos, mais se multiplicavam e se espalhavam. E, assim, crescia a hostilidade contra o povo de Israel. Então, os egípcios submeteram os filhos de Israel a uma dura servidão. Eles amargaram a vida através de trabalho pesado com argila e tijolos, assim como todas as tarefas do campo. E lhes impuseram todo esse fardo de maneira cruel” (Êxodo, 1, 7-14). O rei do Egito dirigiu-se igualmente às parteiras dos hebreus (…) e disse-lhes: “quando assistir ao nascimento das mulheres dos hebreus e quando você olhar sobre os molares de pedra, se elas derem à luz a um varão, matem-no; se for uma menina, deixe-a viver” (Êxodo, 1, 15a,16-17).

Então começaram as primeiras perseguições contra o povo judeu.  Essas perseguições logo marcariam sua história (progroms).

A partir de agora, a comunidade judaica viveria retraída dentro de si mesma, e se tornaria messiânica devido aos sofrimentos e humilhações. Sementes plantadas no terreno moral, feito de miséria e de esperança, eram favoráveis à eclosão e ao desenvolvimento de um sentimento religioso. As circunstâncias eram as mais favoráveis, à medida que esse povo, sem indústria ou organização social (a única célula social era a família patriarcal), armado apenas com paus, não poderia imaginar nenhuma reação positiva à superioridade técnica do povo egípcio.

E foi nesse contexto que Moisés apareceu.  Moisés foi o primeiro dos profetas judeus que, depois da elaboração da história do povo judeu desde as suas origens, nos apresentou, retrospectivamente, uma perspectiva religiosa.  E, assim, ele influenciou Abraão a dizer muitas coisas que ele mesmo não poderia ter previsto: por exemplo, os 400 anos no Egito.

Moisés viveu na época de Tell el Amarna[32](uma cidade construída 190 milhas acima do Cairo em 1396 AEC, como a nova capital do império de Akhnaton), quando Amenófis IV (Akhnaton, cerca de 1400 AEC) estava tentando reavivar o monoteísmo egípcio primitivo desacreditado pela ostentação sacerdotal e a corrupção dos sacerdotes. Akhnaton parece ter tentado reforçar o centralismo político do imenso império recentemente conquistado através da centralização religiosa; O império precisava de uma religião universal. Moisés provavelmente foi influenciado por essa reforma. Daquele momento em diante, ele defendeu o monoteísmo entre os judeus.

O monoteísmo, em seu sentido mais essencial e abstração, já existia no Egito.  O povo egípcio o havia tomado emprestado do Sudão meroítico, a Etiópia da Antiguidade:

Embora a Divindade Suprema, caracterizada pelas mais puras das visões monoteístas como o “único progenitor no céu e na terra que não foi gerado. . . O único Deus em verdade vivo. . .Aquele que gerou a si mesmo…que existe desde o princípio… que tudo fez sem estar de forma alguma aberto para outro …”, um dia Amón – cujo nome significa mistério, adoração –, passou a ser rejeitado e substituído por Ra, O Sol, ou convertido em Osíris ou Hórus[33].

Na atmosfera de insegurança em que vivia o povo judeu no Egito, um único deus era visto como promessa de um futuro estável e seguro devido ao apoio moral insubstituível.  Depois de algumas reticências iniciais, esse povo que, aparentemente, não conhecia o monoteísmo até então – ao contrário da opinião daqueles que o creditam como o inventor do monoteísmo – acabaria de todas as formas por levá-lo a um grau de desenvolvimento bastante considerável.

Com a ajuda da fé, Moisés conduziu o povo hebreu para fora do Egito. No entanto, o povo judeu rapidamente se cansou do novo culto e apenas gradualmente voltou ao monoteísmo (podemos recordar do episódio do Bezerro de Ouro confeccionado por Aarão nos pés do Monte Sinai).

O povo judeu chegou no Egito somando 70 pastores, organizados em 12 famílias patriarcais, nômades sem indústria ou instrução. Então, 400 anos mais tarde, quando esse mesmo povo saiu do Egito, contavam com 600.000 pessoas, que extraíram da terra, que os havia acolhido, todos os elementos para formação de sua futura tradição, e, em particular, o monoteísmo.

Se o povo egípcio perseguiu e fez o povo judeu sofrer tanto, como é descrito na bíblia, e sendo os egípcios negros, descendentes de Cam – tal como relata a mesma bíblia – , não podemos continuar ignorando as causas mitológicas da maldição sobre Cam.  Essa maldição foi introduzida na literatura judaica bem depois do período de perseguição, a despeito da lenda da embriaguez de Noé.

Assim, Moisés, no livro de Gênesis, dirigindo-se a Abraão em um sonho, atribuiu as seguintes palavras para o deus eterno:

Saiba com certeza que a sua posteridade será peregrina em uma terra que não é deles, pois eles devem ser submetidos a escravidão e será afligida por quatrocentos anos[34]. Mas eu julgarei também a nação que os submeteu à servidão e então eles sairão [do país] com grandes riquezas (Gênesis 15, 13-14).

 Estamos frente à origem histórica da maldição de Cam. Não foi por acaso que a maldição sobre Cam, o pai de Mesraím, Put, Kush, e Canaã, recaiu apenas sobre Canaã, habitante da terra que os Judeus haviam cobiçado ao longo de toda a sua história.

De onde veio esse nome Cam, Ham ou Kam? Onde Moisés teria encontrado? No mesmo Egito, onde Moisés nasceu, cresceu e viveu até o Êxodo. Na verdade, sabemos que os egípcios chamavam seu país de Kemit ou Kmt (língua kemetiyu), que significa “negro” na língua egípcia. Por isso, é natural encontrar Kam em hebraico, como equivalente a “calor, negro, queimado”[35]. A interpretação segundo a qual Kemit designaria “terra negra” do Egito, e não apenas “negro” – e, por extensão, a raça negra e o país dos negros –, provém da gratuita distorção de mentes conscientes do que representaria uma interpretação literal do termo.

Sendo assim, todas as aparentes contradições desaparecem e a lógica dos fatos se apresentam desnudas. Os habitantes do Egito, simbolizados pela sua cor negra, Kemit = Cam da bíblia, são amaldiçoados dentro da literatura do povo que eles oprimiram. Podemos ver que essa maldição bíblica sobre a descendência de Cam teve uma origem bem diferente daquela a que hoje geralmente se atribui, sem o menor fundamento histórico. O que não podemos entender, no entanto, é como tem sido possível ‘fazer’ uma raça branca do Kemit ou camita, equivalente a negro, a ébano e outros vocábulos semanticamente relacionados à mesma língua egípcia.

Obviamente, de acordo com as necessidades da causa, Cam é amaldiçoado, enegrecido, e transformado no ancestral dos negros. Assim, repete-se, cada vez que [a personagem] se refere às relações sociais contemporâneas.

Por outro lado, Cam é embranquecido toda vez que se refere à origem da civilização, já que, em seu contexto egípcio, ele viveu no primeiro país civilizado do mundo. Então, quando se imagina a noção dos camitas orientais e ocidentais, é concebida a ideia de que nada mais é do que uma invenção conveniente para subtrair dos negros a vantagem moral da civilização egípcia e outras civilizações africanas, tal como veremos. A figura abaixo permite-nos perceber a natureza tendenciosa dessas teorias.

 

Figura  –  Modelo de beleza camita oriental ( Segundo Nelle Puccioni “Ricerche antropometriche sui Somali”, Archivio per l’Antropologia, 1911; Citado por Seligman em Las Races de l’Áfrique, Payot, 1935). Para ironizar totalmente a piada, enfatizando um tom crítico à categorização, susbstituiria a expressão de Seligman –“Modelo de beleza camita oriental”, pela definição “oficial”—“modelo de beleza da raça branca”– considerada paleomediterrânea, da qual se originaram todas as civilizações negras, inclusive a egípcia.

É impossível relacionar qualquer realidade histórica, geográfica, linguística ou étnica à noção de camita, noção que poderíamos nos esforçar para compreender a partir de seus usos em livros didáticos oficiais[36]. De fato, nenhum especialista foi capaz de apontar evidências científicas sobre o berço de origem dos camitas, a rota migratória que eles trilharam, os países nos quais eles se estabeleceram ou passaram, as características civilizacionais que deixaram, ou, nem sequer, a língua que falavam.  Pelo contrário, todos os especialistas concordam que esse termo não tem um conteúdo sério.  E, no entanto, nenhum deles deixa de usá-lo como uma espécie de chave mestra para explicar a menor evidência de civilização na África Negra.

Pelo contrário, todos os especialistas concordam que esse termo não tem um conteúdo sério. E, no entanto, nenhum deles deixa de usá-lo como uma espécie de chave mestra para explicar a menor evidência de civilização na África Negra.

[1] Chapitre 1 – Qui étaient les égyptiens? In: Nations nègres et culture: De l’antiquité nègre égyptienne aux problèmes culturels de l’Afrique Noire d’aujourd’hui. Paris: Presénce Africaine, 1955.

[2] Érica Portilho é pesquisadora internacional no campo dos estudos endógenos, coordenadora do Centro de Altos Estudos e Pesquisas Afropindorâmicas (CEPA) da Univerkizaki/UKAY, mantido pelo Instituto Hoju no Brasil. Especialista em História Geral da África/Afrodiaspórica, e eneuropsicologia, mestre em Educação para as Relações Etnicorraciais, doutoranda do curso de Antropologia Social. O fragmento do livro foi traduzido para uso didático no Grupo de Estudos Cheikh Anta Diop – Vida e Obra, realizado pelo Instituo Hoju desde maio de 2020. Brasil, Rio de janeiro.

[3] HERODOTO. Livro II, cap. 2 (trad.) Larcher, P. The History of Herodotus, New York: Tudor, 1928. p. 88.

[4] Ibidem, II. p. 58.

[5] Localizada às margens ocidentais do Mar Negro.

[6]  Ibidem, II. p. 104

[7] Padeanos ou padeos eram habitantes do lado extremo oriental da Índia.  Segundo Heródoto, eles comiam seus mortos (N. do T.).

[8] Ibidem. III, 101.

[9] Histoire Universelle, traduzido por Abbé Terrason. Paris, 1758, Bk. 3, p.341.

[10] In: http://www.strabo.ca/editions.html.

[11] Livro I, cap. 3, p.10)

[12] Os Cólquidas formaram um grupo de negros entre populações brancas perto do Mar Negro; é por isso que o problema de sua origem intrigou estudiosos durante a Antiguidade. Supondo que “negro” referia-se à tonalidade “semítica” dos egípcios, propomos as seguintes questões: Por que os gregos reservaram o termo “negro” somente para os egípcios, e não para todos os semitas? Por que eles nunca o aplicaram aos árabes, que são semitas por excelência? Será que os egípcios apresentavam características “semitas” tão próximas de outros negros africanos, que induziu os gregos a acharem natural sua semelhança a ponto de se confundirem, adotando exclusivamente o mesmo termo étnico (melanos) – o mais próximo na língua grega para denominar negro? O termo negro, ainda hoje, é usado sempre que se deseja indicar um tipo étnico de maneira assertiva, sem ambiguidade. Vejamos alguns exemplos: melanina, pigmentação que colore a pele de um negro; Melanésia, um grupo de ilhas habitadas por negros. O fato dos gregos serem muito sensíveis a nuances de cor, a partir de seu contexto histórico sugere que distinguiam claramente quem eram negros, onde quer que fossem vistos.

[13] MASPERO, Gaston. Histoire Ancienne des Peuples de l’Orient . Paris: Hachette, 1917, p. 15, 12ª. ed. (traduzido como: The Dawn of Civilization, Londres, 1894 ; reimpresso, New York: Frederick Ungar, 1968).

[14] Genesis, X, 6-16, tradução de Louis Segond. 1948.

[15] Sennar no hebreu bíblico designa a Mesopotâmia, a terra entre os rios Tigre e Eufrates. Diop compara e vincula essa denominação com Sennar ou Sinar, que é uma palavra que se refere ao distrito da região de confluência do Nilo Azul e do Nilo Branco, no atual Sudão (até os confins sudaneses da atual Etiópia), uma cidade nessa região, a mesma região (conhecida na Antiguidade como Ilha de Meroé), o Sultanato Funj de Sennar (séc. XVI-XIX), islamização do Reino Núbio, anteriormente cristão, que incluía a mencionada região

[16] Ver o mapa da África de Vaugondy de 1975.

[17] Antigo povo da zona de transição entre Europa e Ásia Central (provavelmente localizado no território da atual Ucrânia), conhecido por Heródoto, que seria vizinho dos escitas e havia se aliado a eles contra os persas comandados por Darío (N. do T.).

[18] Heródoto, Livro II. p. 236.

[19] Diop se refere ao Grande Labirinto Egípcio, grande conglomerado de templos famosos da Antiguidade e que até agora não foi achado, apesar de fazerem algumas prospecções em Hawara (N.do T.).

[20] Ibid. pp. 133­134.

[21] Para os gregos o nome Líbia designava a África fora do Egito e Etiópia.

[22] Ibidem, 88 pp. 88­89.

[23] Tanis, a Zoan bíblica, na foz do ramo oriental do Delta do Nilo.

[24] MONET, Pierre. Sciences et Avenir, No. 56, outubro de 1951.

[25] Habitante de Cária, uma região helenizada localizada na costa mediterrânea da Ásia Menor (atual Turquia), vizinha da mais conhecida Jônia e cuja principal cidade nos tempos de Heródoto era Halicarnaso, sua cidade natal (N.T.).

[26] Braço mais oriental do Nilo no Delta no tempo de Heródoto (N.T.).

[27] Psmtk, Psam.tk, Psametek (transliteração), traduzido como Psamético.

[28] PAUW, M. Recherches sur les philosophiques Egyptiens et les Chinois. Tomo II. Berlim, 1773, p. 337.

[29] Heródoto. Livro II, p. 179).

[30] BACHOFEN, J. J. Pages choisies par Adrien Turel, “Du Règne de la mère au patriarcat.” Paris: F. Alcan, 1938, p.89.

[31] Provavelmente nos confins do Delta (N.T.).

[32] A contemporaneidade de Moisés e Akhnaton – que identificou os hebreus com os habiru – sendo uma das múltiplas teorias que competem entre si (com Ramsés II, Ra-mose, os hicsos como contemporâneos de Moisés), e que se caracterizava por insistir na debatida influência do monoteísmo amarniano (e talvez seu “universalismo” político), no judaísmo – e, em consequência, no cristianismo e no islã (N.T.).

[33] PEDRALS, D. P. Archéologie de l’Afrique Noire. Paris: Payot, 1950, p. 37.

[34] Se há alguma precisão na narrativa bíblica, fica difícil imaginar um povo judeu sem sangue negro. Em 400 anos passou de 70 para 600 mil pessoas, no meio de uma nação negra, que os dominou durante todo esse período. Se os traços negroides dos judeus são menos pronunciados hoje, muito provavelmente é devido ao seu cruzamento com elementos europeus desde a sua dispersão. Atualmente, existem linhas de investigações bem confiáveis que afirmam que Moisés era egípcio, portanto, um negro. Ver Moisés e o Monoteísmo de Sigmund Freud, 1939.

[35] Ver PÉDRALS, citando L. J. Morié, p.27 do livro Archéologie de l’Áfrique Noire, Payot, Paris, 1950.

[36] A propósito do significado étnico de Kem, ver a continuação de nossa aproximação, em particular na parte que se refere à questão linguística, entre as páginas 286 e 288.

 

Ouça o capítulo na íntegra no link https://youtu.be/mdVeF1QeH4Y.

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